terça-feira, 9 de abril de 2013

A "ténovela" da URI

Para os menos atentos, na 5ª feira passada foi-me possível "checkar" um item na minha lista do "Living the American Dream". Ainda que tenha tido a sorte de nesse dia ter decidido ir para a outra Universidade, a Universidade com a qual tenho vínculo e na qual trabalho a maioria das vezes teve um daqueles tão típicos episódios de "gunman spotted" com direito a gente trancada nas salas de aula, Universidade evacuada e polícia (mais que as mães, dizem) a invadir o edifício onde estava supostamente o tal "gunman". Liguei aos meus coleguinhas para saber se estavam bem e eles estavam felizes da vida no lab a dizer que se sentiam muito seguros porque para entrar no nosso laboratório é preciso um cartão...claro que se houvesse alguém com ganas de andar ao tiro e matar uns quantos era mesmo uma portinha (envidraçada) que o ia parar...mas fiquei contente pela descontração deles. Entretanto a coisa passou. Não encontraram nada e o edifício foi aberto para o pessoal sair. No dia a seguir deram o dia aos alunos para ficarem em casa a recuperar do trauma (nunca vi adolescência tão mimada em toda a minha vida).
Entretanto, as teorias da conspiração começaram. Toda a gente desconfia de toda a gente e, sem exagero, passear naquele Campus é ser alvo de olhares de desconfiança.
Hoje, saiu um novo alerta. Aparentemente, na 6ª feira à noite a seguir ao sucedido, um rapazinho que estava na biblioteca demonstrou um comportamento muito estranho...disseram as testemunhas (que chamaram a polícia) que o rapaz estava a um canto da biblioteca a rir alto e sozinho e, quando lhe perguntaram o porquê de tanta excitação, ele respondeu qualquer coisa do género: "muahahaha, na próxima semana vão descobrir!!".

Ora bem, esta pessoa (na foto em baixo) está agora a ser procurada por todo o Campus. Eu tenho cá para mim que um jovem estar enfiado numa biblioteca numa 6ªfeira à noite também é coisa suspeita, mas daí a lançarem um alerta geral...Por favor avisem o Mr. Crock para não vir para estas lados nos próximos tempos...

Eu geralmente ando pelo Campus de head-phones e às vezes esqueço-me e canto um bocadinho alto. Por isso, deixo já o aviso que é possível que vejam a minha foto por aí um dia destes...é que ainda por cima eu desafino e a coisa pode tornar-se desagradável...

Aqui fica a foto e a descrição do maluquinho...ups, suspeito...


URI Campus Police are again asking for your assistance identifying a young man who was reportedly in some distress in the library Friday evening. We have posted new, clearer photographs of the individual on our Alert Page. He is described as a white male with a buzz haircut, clean-shaven, about 6' tall and 220 lbs. with a muscular build. He has a receding hairline and appears to be between 27-33 years of age. If you think you know the identity of this person, please call the URI Police at 874-2121. 
    

terça-feira, 2 de abril de 2013

Em jeito de balanço...

Para além de todas as outras, tenho uma estranha mania de fazer balanços na minha vida. Agarrar naquilo que fiz e fazer a ponderação entre aquilo que queria ter feito. Pesar as experiências, aprender com as más, aproveitar as boas, mudar de sítio aquilo que não está bem onde eu queria que estivesse, limpar o pó ao que  quero manter no sítio e deitar fora algumas coisas que já não vale a pena manter. É um bocado como as limpezas de Primavera em que se vira o colchão ao contrário e a roupa de Inverno vai para o baú de onde saem agora as de Verão. 
Não faço resoluções de ano novo e geralmente não faço dessa passagem um marco para arrumar a cabeça, mas esta é melhor altura porque passaram-se 6 meses desde que acabei o PhD, 6 meses que estou a viver nos EUA e 6 meses desde que comecei um novo trabalho como postdoc. É meio ano, meio ciclo, tempo de fazer balanços, pesar o bom, o mau e perceber se vale a pena continuar o caminho por aqui ou se é melhor mudar o precurso.

Nestes 6 meses aprendi mais que num par de anos em Portugal. Não foi só profissionalmente que cresci, mas também enquanto pessoa e, principalmente, na forma como vejo os outros e a mim mesma. Sairmos da nossa zona de conforto, deixarmos para trás aqueles que sabemos que estão sempre por baixo da corda-bamba a segurar a rede que nos ampara e passarmos a contar essencialmente connosco próprios, ao início assusta. Avançamos devarinho porque ainda nos estamos a habituar a termos que nos equilibrar sozinhos, mas depois de percebermos que somos capazes a sensação de segurança em nós próprios acaba por nos permitir ir por caminhos que há uns meses nem sonhávamos ser capaz de percorrer.

Nestes 6 meses conheci pessoas novas, diferentes, sítios novos, estilos de vida que só achavamos existir na televisão. Dei passos maiores que as pernas, caí e levantei-me. Senti, pela primeira vez, a nível profissional, que faço falta, que o meu trabalho não só é valorizado como essencial. Propuseram-me novos desafios, aceitei, tive medo...ainda tenho medo...fizeram-me sentir valorizada, deram-me parabéns, votos de confiança. 
Já tive vontade de fugir daqui, já tive dias muito maus...já tive dias em que me bastou haver sol para ser mais feliz. Já tive dias em que senti que o chão me fugia e pensei desistir. Já achei que nada disto valia estar longe dos que amo, já achei que isto era A experiência, já achei que não queria estar em mais lado nenhum que não aqui. Aprendi a conhecer-me muito melhor, aprendi a conhecer os outros. Percebi quem está lá nos dias em que o chão me foge para me ajudar a reequilibrar. Conheci melhor aqueles que achei que já conhecia de gingeira. Tive dias tão de merda em que não consegui sair de casa e nesses dias, sem que tivesse que dizer nada, tive quem me esticasse a mão. Aprendi que estar longe faz-nos ver melhor quem queremos por perto. Percebi que por mais laços que se estabeleçam e por mais pessoas que se conheça é importante que nos vão lembrando que os laços antigos continuam intactos. Conheci o que é ter medo à séria. Passei por um furacão e uma winter storm com direito a blizzard. Já adormeci a chorar com saudades. Já acordei a chorar com saudades. Viciei-me em chocolates com manteiga de amendoim e mesmo assim emagreci 5kg. Passei a caminhar uma média de 1h30 por dia e gosto. Aprendi a racionalizar...as emoções e as saudades. Aprendi que as saudades que tenho dos meus sobrinhos são impossíveis de racionalizar, são saudades que doem e me deixam sem fôlego.

Foram 6 meses que me ensinaram mais que muitos 6 anos e depois de altos e baixos percebo que valeram muito a pena. O balanço? Positivo...venham mais 6!! :-)