De tempos a tempos dá-me para isto...provavelmente, e se fizer bem as contas, a coisa é capaz de coincidir com determinada fase do meu ciclo menstrual, ou qualquer coisa que o valha. Mas já me deixei de fazer contas, aceito que somos todos um saquinho de sangue que é bombeado com hormonas a cada segundo que passa e resigno-me à condição de receptáculo de neurotransmissores e outras demais hormonas e tento apenas lidar com isso, ajustar as doses, gastar os excessos.
Se há alturas em que dói e que somos acometidos daquele sentimento parvo de auto-comiseração em que, de uma forma egoísta, atraímos todas as atenções para nós em busca de qualquer coisa que nos levante do chão, que nos encha o ego ou simplesmente que nos lembre que lá fora há quem goste de nós, outras há em que o que mais dói é esta impossibilidade de lá estarmos para aqueles que gostamos. Senti-mo-nos presos e amordaçados e por mais que tentemos dar aquilo que podemos à distancia de um click num botão de rato fica sempre a faltar qualquer coisa, fica sempre a faltar tudo. E mais difícil do que lidar com a nossa própria dor, é a impossibilidade de aliviar a dor daqueles que gostamos de ajudar a carregar o fardo de ajudar a ajustar as doses dos bombardeamentos de hormonas a que estão sujeitos aqueles que amamos.
E quando penso nisso, lembro-me de um dos livros que mais gostei de ler, "A Insustentável Leveza do Ser", em que o Kundera dedica um capítulo inteiro à compaixão e a explora até à exaustão. Fiquei a perceber que há dois lados da mesma moeda e que, se nas línguas germânicas, compaixão assume o sentido de uma partilha pelo sentimento alheio em que as dores de quem nos está próximo tornam-se nas nossas próprias dores, as derivações latinas desta mesma palavra significam apenas piedade, o que acontece quando nos posicionamos num nível superior aquele que sofre e que nos garante uma posição dominadora. É como que se a compaixão fosse uma dádiva ao próximo e não uma partilha da dor como é visto pelos germânicos.
E depois penso que, mais uma vez, tudo se resume ao mesmo egoísmo de sempre. Que apenas oscilamos entre momentos em que precisamos sentir que os outros lá estão para nós e que partilham das nossas dores como na acepção germânica da palavra e momentos em que queremos assumir o nosso valor perante o próximo e por-mo-nos no nível superior oferecendo a nossa ajuda. E no fundo vai dar tudo ao mesmo, e no fundo somos todos uma cambada de egoístas que só queremos elevar-nos a nós mesmos.
Mas depois lembro-me de vocês, e passam-me as fases filosóficas e deixo de pensar e limito-me a sentir. E as vossas dores doem-me, e os vossos problemas preocupam-me. E é tão mais fácil lidar com as nossas próprias dores do que com as dores dos que gostamos. Connosco sabemos como ajustar os botões, sabemos para que lado os girar de modo a tornar a coisa mais suportável. Com os outros não sabemos se estamos a fazer o movimento certo e se girarmos para a direita vai acabar por fazer doer mais. E queremos estar perto e dói tanto...mas com a nossa dor podemos nós bem. E um simples abraço podia curar tanta coisa...e nós estamos tão longe para isso...e é uma merda. Uma filha da puta de distância que não nos deixa curar as dores dos nossos, ou pelo menos torná-las mais suportáveis.
E por mais que vos diga que gosto de vocês e que vos lembre de quando em vez o quanto me fazem falta hoje acordei com a certeza que devia estar aí e que queria estar aí e que por mais que escreva e por mais que fale e por mais que fique triste, a única coisa certa a fazer era estar aí...e a puta da distância não me deixa estar aí.
E como um dia vos disse "these boots are made for walking"...só não sei é se foram feitas para percorrer grandes distâncias...
Adorei! especialmente "É tão mais fácil lidar com as nossas próprias dores do que com as dores dos que gostamos" :)
ResponderEliminarTânia só para te rires, hoje também afoguei as hormonas todas num bacalhau com natas do Alô Pizza...que comi todo sozinha...Ca estupidez....acho q n fazia isto desde a faculdade...lol..
Bjo...continua a escrever e Boa Noite
Catarina*
Ai que saudades desse bacalhau com natas!!!! Mas isso nem é muito, eu qd comprava achava sempre que ia dar para duas refeições mas marchava tudo só numa :)
ResponderEliminarBeijinho grande!!
Gosto de ti pessoa! E das tuas hormonas também!
ResponderEliminarOh meu grãozinho de areia!!! Mesmo sem te identificares sei bem quem és minha Margarida do coração! Gosto de ti mil!!! Beijo grande
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