sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

5 anos que se sentem como uma vida inteira

Lembro-me de ser pequenina [não sei exactamente a idade mas lembro-me que ainda ficava na casa da avó Alzira e ainda chamava cor-de-limão ao amarelo], e enquanto estava na cama à espera que o sono viesse às vezes era sobressaltada pela ideia dos meus pais morrerem. Ficava aflita, faltava-me o ar e o coração começava a bater muito depressa. Aprendi mais tarde que era um género de ataque de pânico. Para me acalmar dizia muitas vezes seguidas que aquilo não era possível, que não acontecia, que os pais não morrem nunca.
Faz hoje 5 anos que me morreste, que deixei de me poder acalmar e repetir muitas vezes que os pais não morrem. Faz hoje 5 anos que deixei de atender o telefone à hora de almoço só para te dizer que estava bem e receber o beijinho que fazias questão de me mandar todos os dias. Faz hoje 5 anos que não me agarras nas mãos, pões entre as tuas, para mas aqueceres ao mesmo tempo que dizes "tens sempre as mãos tão frias", que não me ensinas o nome daquela erva qualquer que eu encontro e não sei o que é, que não me dizes que preciso ter mais calma e ser mais serena. Há 5 anos que não te ligo para, no meio do entusiasmo, te descrever o sítio novo para onde viajei e que tu absorvias como se tu próprio lá estivesses. Há 5 anos que não te agarro na orelha até ficares com ela vermelha e tu, só quando já não aguentavas mais, me pedires para "largar um bocadinho".
Sempre gostaste daqueles de quem eu gostei, aqueles que tiveram a sorte de te conhecer, "se te fazem feliz também me fazem feliz a mim" dizias. Mas sabias pôr-me no meu lugar quando eu perdia a razão e por mais que me visses chorar ou berrar tentavas mostrar-me que era eu que estava errada e que não devia causar tanto alarido por uma coisa que certamente não interessava...desvalorizavas e dizias-me para não me esquecer que "não há nada melhor no mundo do que termos ao nosso lado aqueles que nós amamos."
Há 5 anos que aprendi que nada pode ser dado como garantido, que as pessoas que amamos também podem desaparecer. Há 5 anos que tento ser uma pessoa melhor (como tu), que aprendi que dizer "gosto de ti" a quem gostamos nunca é demais e que sabe tão bem dizê-lo quanto ouvi-lo, que não consigo ir para a cama chateada com ninguém porque não sei se no dia a seguir cá estarei para pedir desculpa ou para dar o abraço que ficou por dar. Há 5 anos que não te posso dar o nosso abraço, mas há 5 anos que, todos os dias, me ensinas que posso ser sempre uma pessoa melhor.
Contrariando o cliché, as saudades não diminuem com o tempo. As saudades aumentam todos os dias, e todos os dias temos que reaprender a como viver com elas. 
No dia em que soubeste que estava doente disseste-me que não tinhas medo de morrer que, por ti, não te importavas, mas que não querias morrer porque sabias que eu ainda precisava muito de ti. Sabes, tinhas razão...precisava de ti. Vou precisar de ti para sempre.
As pessoas morrem e o corpo desaparece para sempre, mas aquilo que nos ensinaram, os valores que nos passaram e a maneira como nos moldaram mantém-nas vivas para sempre. Eu vou sempre precisar de ti, mas tu vais estar sempre aqui, em cada conquista, em cada gargalhada, em cada história que conto aos meus sobrinhos, em cada obstáculo ultrapassado e em cada momento de felicidade. Preciso de ti, sim, mas sabes, tu estás sempre comigo.
E, por aqui, quando tenho as mãos frias, faço aquilo que me contavas que fazias, quando eras miúdo, no caminho para a escola quando estava a nevar. E assim, continuas também a aquecer-me as mãos quando estão frias :-)



Devia morrer-se de outra maneira.Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.Ou em nuvens.Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sola fingir de novo todas as manhãs, convocaríamosos amigos mais íntimos com um cartão de convitepara o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunicaa V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hojeàs 9 horas. Traje de passeio".E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatosescuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistira despedida.Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio."Adeus! Adeus!"E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,numa lassidão de arrancar raízes...(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-seem fumo... tão leve... tão sutil... tão pólen...como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de Outonoainda tocada por um vento de lábios azuis...

              (José Gomes Ferreira)

* Quem me conhece bem sabe que não sou de me explicar tanto, de falar tanto do que sinto ou do que me passa pela cabeça. Estar longe de tudo e de todos aqueles que me entendem sem eu ter que dizer nada faz-me ter a necessidade de me expressar de outra forma. Escrevo para me sentir um bocadinho mais perto de vocês, escrevo para ir mantendo algum equilíbrio. Como dizia Bukowski: "Nothing can save you except writing. It keeps the walls from failing. The hordes from closing in. It blasts the darkness. Writing is the ultimate psychiatrist, the kindliest god of all the gods." 

10 comentários:

  1. estou aqui a fazer figuras parvas para conter a lágrima...não por estar triste por vocês mas pela sorte que tiveram. Beijinho

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  2. :) Eu n contive...beijinhos e Bom Fim de SEmana!!!!*** Neste está cá o meu emigra :)))

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  3. :) Eu n contive...beijinhos e Bom Fim de SEmana!!!!*** Neste está cá o meu emigra :)))

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  4. Lindo meu amor, ele era mesmo assim como o descreves


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  5. obrigada tania, por partilhares connosco algo tão bonito ;)
    Gostava de conseguir fazer as coisas bem para ter relação tão bonita como a vossa com o tomézito ;)
    mil beijinhos

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  6. Tenho a certeza, minha querida, que o Tomé um dia vai ter tanto orgulho em vocês como nós temos no meu pai! :) Um beijinho grande

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  7. Tânia como sempre escreveste muito bem...
    As tuas palavras sensibilizaram-me muito. Nem quero imaginar perder alguém tão próximo, quanto mais um pai ou uma mãe...
    De facto a vida foi muito injusta... Mas infelizmente temos de ter força para continuar a viver...
    Um beijo muito grande:)

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